Boa Noite!
Este é o placar que parece representar o ano de 2008 para todos os profissionais de saúde que estudam, entendem e defendem o Modelo de Atenção Primária em Saúde (APS), expresso em sua forma gerencial pela Gestão de Cuidados Integrada. Não se trata de uma crise de pessimismo ou derrotismo. Mas da triste constatação deste momento que atravessamos, no país e no mundo.
1 a 0:
Completaram-se em 2008, trinta anos da Conferência Mundial de Saúde realizada em Alma-Ata e que resultou na consolidação da APS, bem como na declaração de 22 pontos assumidos como compromisso de todos os segmentos e países presentes, voltados par a Saúde Coletiva. Muito entusiasmo, bastante agitação e... parcos resultados.
Alma-Ata esteve solenemente esquecida neste ano, ignorada por um mercado cada vez mais concentrado e agressivo, cuja tecnificação restrita ao maquinário já ultrapassou qualquer barreira de normalidade e racionalidade, mesmo para os empresários da saúde. Pensar Saúde como um sistema, onde as células interagem, mas cujo centro é o ser humano, e a principal força seria a atuação interdisciplinar, parece cada vez mais com um acontecimento jurássico, para ser buscado apenas durante uma visita de museu e que pouco tem pautado as discussões e medidas CONCRETAS dos gestores estratégicos de saúde aqui, neste país que nunca viu em sua história tanta coisa, tampouco no mundo, em especial no Velho Continente. Os sistemas implantados andam, aos trancos e barrancos – é bem verdade – porém, continuam andando. Mas, e o restante?
2 a 0:
A única ação realmente de APS desenvolvida pela Ministério da Saúde foi a do Parto Natural. Claro, nos moldes de sempre: palestras, eventos televisivos, reuniões, consultorias, mais palestras, mais reuniões, de novo reuniões e... Cadê o cliente? Aliás, tenho voltado sempre a esta tecla:
Se defendemos um modelo voltado para o mapeamento do sofrimento do ser humano, o que é um anseio de todos nós;
Se este modelo envolve todos os círculos de relacionamento deste ser, da família ao trabalho, o que torna a intervenção qualificada e, em tese, muito mais resolutiva que qualquer outra;
Se existe uma convergência no diagnóstico da crise de saúde no nosso país e no mundo... Por que não conseguimos emplacá-lo? Por que não há manifestações de satisfação e procura desenfreada dos nossos clientes pela Gestão de Cuidados?
Mantenho a minha teoria: nossos grandes divulgadores, os médicos e demais profissionais que atuam na APS, têm-na como uma opção ideológica, filosófica ou de qualquer outra natureza, exceto como uma estratégia qualificada voltada para o CLIENTE/PACIENTE/USUÁRIO (ou o nome que você entende melhor politicamente, para mim esta questão não é essencial).
Não estamos “conquistando” nossas populações, pois continuamos a atuar de forma médico centrada. As equipes de atenção primária deveriam alcançar junto ao seu paciente/cliente o status de alta resolutividade, de diferencial quanto ao resultado, uma confiança na essência e não uma relés mudança de aparência. Estamos preocupados demais com a ideologia da APS e esquecendo o cliente/paciente.
Depois de trinta anos de discursos colocando o ser humano como centro da APS, esquecemos que ser humano no mundo real quer dizer paciente. É aquela pessoa que vem ao serviço e deseja sentir-se contemplado, acolhido, tratado diferencialmente pelo resultado, não pelo tamanho do sorriso que não consegue resolver seu sofrimento.
Olha, sinceramente, está na hora (ou já passou?) de pararmos para “discutir a relação”. Antes que um rompimento se dê de forma irreversível.
Pensando bem, perder este ano de 2 a 0 foi pouco. Poderíamos ter tomado de WO por abandono total, não da equipe, mas do cliente!
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