Boa Tarde!
Não sou daqueles que costumam minimizar a força da mídia, pelo contrário, sempre cito esta questão como um verdadeiro rolo compressor que consegue até mesmo mudar as verdades mais comuns e de domínio público quando é do seu interesse. Mas sinceramente o caso da gripe suína (vírus H1N1) no Brasil deveria tornar-se tema de um profundo estudo e de uma séria reflexão.
A situação atual é de pânico generalizado, com todas as pessoas não apenas assustadas, mas sentindo-se vítimas de uma verdadeira teoria do abandono (ou da conspiração?). Qualquer situação letal é atribuída imediatamente à gripe suína e, ao invés de se buscar medidas de prevenção aos grupos afetados, descamba-se numa corrente de caça às bruxas insensata, desmedida e inócua.
Mas o pior, para mim não é nem mesmo esta maluquice acima. O pior é que a gripe comum, muito mais letal que a suína, está sendo relegada, desprezada e mal tratada. Os casos de óbito por pneumonia, e estes quem sabe resultantes da falta de cuidados dos pacientes após terem sido informados que não se tratava da famigerada gripe suína, deveriam ser quantificados e analisados.
Estão sendo desprezadas as orientações médicas e mesmo as prescrições medicamentosas, quando cabíveis e efetuadas, estão quase que relegadas. É como se ao receber a negativa da gripe suína, o paciente suspirasse de alívio e considerasse todo o restante de patologias que sempre surgem no período de inverno, coisinhas passageiras... Não o são! E esta distorção da gravidade da situação atual está relacionada, em minha opinião, à forma sensacionalista e quase irresponsável com que a Mídia brasileira tratou o surgimento e a chegada do vírus no país.
Óbvio que a falha na condução da saúde coletiva é inegável. O país preferiu encontrar termos assemelhados à "marola da crise" para tratar de algo que se sabia inevitável: com a globalização, também os vírus se locomovem quase que em tempo real por todo o globo terrestre. O Governo, por seu Ministério da Saúde, ao se dar conta do imenso vácuo em que foram jogados os programas de prevenção e promoção neste país, preferiu apostar na "estrela" da sorte (o vírus não chegaria no patamar temido, tal qual a crise) que vem sendo a tônica de condução dos problemas nestes últimos anos.
Saúde não se faz com discursos, nem com ideologias. Aliás, já faz um bom tempo em que adotei a tese do poeta que ideologia serve mesmo para vender livro e prover o sustento de alguns não trabalhadores.
A Saúde coletiva é um processo que se constrói diuturnamente, conquistando-se corações e mentes, mas principalmente oferecendo-se acesso e obtendo-se resultados concretos. Ao paciente não basta ser atendido. Ele precisa perceber e sentir que se agregou valor àquilo que busca num sistema de saúde: a melhoria da qualidade de sua vida.
A mídia não tratou disto, talvez porque prevenção e promoção não são capazes de aumentar o índice do IBOPE, em especial numa população que há décadas vem sendo doutrinada por ela, mídia, a valorizar programas nos quais sangue e mortes são atrações principais.
Quando a própria vida humana é relativizada, quando o ser humano é tratado como se fosse um grão de poeira que, numa tentativa aleatória do universo se formou, como se pode esperar que a reação da população seja diferente daquela que vivenciamos hoje?
Nenhum comentário:
Postar um comentário