Boa Tarde!
Por que as tragédias são tão duras para com as pessoas que fazem o bem? Depois da noite de medo e dor que travessou a América Central e ceifou a vida de pobres haitianos, de dedicados soldados brasileiros e da defensora das crianças chamada Zilda Arns, parece que nada faz sentido. Mas as tragédias existem desde que o homem foi criado e até o momento de seu resgate elas continuarão a atravessar nossas vidas sem que as chamemos, e deixarão a dor em nossos corações das mais diferentes formas.
As pessoas boas que foram vítimas dos cataclismas no Haiti não deveriam deixar-nos apenas saudades, mas especialmente os seus testemunhos. Elas dedicaram suas vidas às coisas mais preciosas que existem: aquelas nas quais acreditamos. Quando colocamos nossos corações numa opção de vida, quando não deixamos que nada e nem ninguém quebre a nossa fé, os nossos princípios, as verdades pelas quais vivemos, a vida deixa de ser algo repetitivo e enfadonho e vai se tornar uma experiência renovada, forte e que dá sentido a qualquer coisa que nos aconteça, inclusive as tragédias.
Trabalhei como voluntário da Pastoral da Alimentação Alternativa, que esteve no início dos trabalhos coordenado por Dona Zilda. Trabalhava no interior da Paraíba, numa região tão pobre e sem recursos que as famílias mais numerosas viam, impotentes, suas crianças morrerem de fome em virtude da total ausência de amparo ou assistência em especial nos períodos de estiagem, por parte dos poderes públicos. Ela nos mostrou que enquanto buscávamos alimentos, poderíamos usar os produtos da terra, em especial diversos que eram descartados como “sobras”.
Nada se perde quando o que se busca é feito através do amor ao próximo. Somente se ganha com a experiência do voluntariado e da dedicação, seja qual for o dom que recebemos do Criador. Dona Zilda deu um forte exemplo de que quando desejamos ajudar, sempre é possível encontrar um caminho.
Como mulher forte e decidida teve seus momentos de tensionamento com autoridade e outros de seus pares, mas o que fica é o seu testemunho. Aliás, morreu porque se encontrava num país pobre e aviltado desde sua colonização até os dias atuais, fazendo conferências para mostrar que é possível resgatar os mais sofridos do cruel destino que os homens poderosos lhes reservaram.
A saudade é o termômetro do amor que se tem por alguém. Mas ela não é estática e nem impeditiva da ação, ao contrário, deve ser o combustível para mantermos os trabalhos, o foco e a solidariedade que podem, apenas elas, resolverem a grande ferida da injustiça social construída no mundo pelo capitalismo inconseqüente e descomprometido.
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