18 de mar. de 2010

VIDAS IMOLADAS

Boa Noite!

Esqueçam o que escrevi. Assim, um líder brasileiro rompeu há alguns anos com os compromissos pessoais que possuía com uma postura democrática e voltada à inclusão que o motivara a escrever, de forma intelectual e brilhante, livros e escritos diversos nos anos de chumbo, em favor dos perseguidos. Esqueceu que tudo o que levamos ao papel deve sair do fundo de nossa alma, sob pena de ser apenas algo superficial e frívolo que não resiste ao menor dissabor trazido pela vida.
A ânsia do poder faz com que homens inteligentes tentem passar uma esponja de água, não sobre o que escreveram, mas tentando varrer de dentro de si os princípios e valores sedimentados ao longo de suas vidas. Palavras podem atrair holofotes, dar projeção momentânea, mas não são capazes de assegurar a paz.
Agora, em nossos dias, outra liderança compara manifestantes políticos a marginais. Parece querer dizer-nos: esqueçam o que eu vivi.
Como se nós, meros cidadãos, fossemos atraídos apenas por aspectos físicos superficiais e repetidos, ou por rompantes que a pretexto de serem engraçadinhos soam a mediocridade e beiram algo grotesco e violento.
Não sou defensor de mártires, pois sinto imensamente a falta daqueles que, se vivos, poderiam contribuir para que tantas amnésias não ocorressem em nossos líderes. Preferia que dissidentes buscassem a voz possível de se obter numa ditadura, seja ela qual for, do que doarem suas vidas numa imolação que somente sensibilizará o 'mundo desenvolvido' se repetida em número que choque a HIGH SOCIETY mundial.
Mas não é possível não estarmos chocados com o silencioso grito de socorro que os sacrifícios cubanos trazem a todos nós. Fidel não enganou apenas o povo que o acolheu como libertador, quase um santo que descia de Sierra Maestra para dar ao povo sofrido com a ditadura de Fulgêncio Batista, novos e melhores dias. Fidel enganou a si mesmo, pensando ser algo diferente de um déspota que executou os que acreditaram cegamente em suas palavras e vendeu seu projeto e sua biografia à ditadura comunista soviética que o sustentou (e sua corte) por longas décadas.
Portanto, negar que os dissidentes políticos são vítimas é brigar com a realidade, jogar no lixo todas as lições que a democracia deveria ter trazido a todos nós.
Não consigo mais ficar zangado com nossos líderes. A tristeza de vê-los jogarem fora suas biografias é muito maior do que a decepção com suas omissões. São tantos discursos em nome da paz, e tantas atitudes favoráveis à guerra, que chego a duvidar da própria sanidade do povo brasileiro.

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