Boa Tarde!
Um dos grandes líderes da Igreja Católica na América Latina, profundo defensor dos pobres e dos perseguidos, o falecido Dom Hélder Câmara, possui um belíssimo poeta acerca do sacrifício de Jesus feito por cada um de nós e relembrado, revivido e celebrado pelos católicos esta semana, que se inicia com este pedido: Não desças da cruz!
Dom Hélder não quer louvar o ato da crucificação, mas sim expressar tanto sua imensa gratidão pelo amor que fez com que Jesus se entregasse, quanto a nossa imensa incapacidade de nos mantermos fiéis aos seus ensinamentos e exemplos. Somos fracos, somos imperfeitos, acovardamo-nos ante um mundo dominado e conduzido por inúmeros covardes travestidos de líderes.
Queixamo-nos da falta disto ou daquilo nos nossos governantes, e em geral estamos cobertos de razões para fazê-los. Mas basta chegar o tempo de exerceremos nossos direitos de cidadania para que nos acovardemos no voto que, por exemplo, esteja de acordo com o pensamento dos outros, ou com a maioria das pesquisas, ou com a opinião do meu chefe, ou com outra bobagem da espécie.
Queremos compromissos nos outros, apenas porque quanto mais eles o possuírem, talvez menos seja requerido de nossas atitudes uma firmeza maior, uma dedicação mais intensa, um comprometimento efetivo. Necessitamos da cruz de outrem, pois não assumimos as nossas. Aliás, para que o plural? Às vezes a vida nos coloca uma cruz muito inferior a de tantos que se dedicam de corpo e alma à construção de um bem comum, da inserção, da defesa dos fracos e excluídos. Mas nós continuamos a nos iludir que mesmo uma cruz maior ou menor pode ser abandonada à margem da estrada da vida, sem qualquer problema, ou melhor, apenas pela localização de alguém que a assuma.
Será que não percebemos a felicidade, simples, porém persistente, que emana de todas as pessoas que candidamente assumem tais cruzes, em especial as que abandonamos? Não parece que o madeiro pesa-lhes sobre os ombros, ao menos quanto à alegria ou a uma vida plena. Ao contrário, a doação multiplica as horas cronológicas e diminui o espaço para as frustrações, para o esvaziamento da vida, ou para o apego às coisas materiais.
Realmente, por nossas fraquezas é que Cristo foi içado no Calvário. E é por nossa covardia que foi preciso pedir-lhe que permaneça na cruz. Não que Ele tenha pensado em abandoná-la. Nunca. Mas é que nós jogamos tantas cruzes ao largo da estrada de nossa vida que não conseguimos imaginar alguém enfrentando-a exclusivamente por amor.
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