Boa Noite!
O primeiro gerente que conheci na vida foi 'Seu' Tenório. É assim mesmo que me lembro dele, não com o formalismo do Senhor, nem com a subserviência do Chefe, mas com a proximidade respeitosa, quase um título: 'Seu' Tenório. Confesso que a primeira análise minha foi um tanto decepcionante. Equiparava os gerentes aos cavaleiros que haviam povoado a minha imaginação de adolescente, ou os bravos herós dos filmes de guerra que eram a grande (e costumeira) atração do cinema de minha terra (por sinal a única diversão perene de todos nós).
Mas ele não era um e nem outro tipo. Atarracado, bigodudo, cabelo branco que daria para fazer uma propaganda daquele alvejante tão famoso. Ele silenciava as conversas dos funcionários mais velhos e possuía a fantástica capacidade de esvaziar rapidamente a copa, nos momentos de café prolongado dos funcionários, sem precisar dizer uma única palavra.
Eu ficava zangado e fascinado com tal poder. Mas levei meses para falar com ele alguma palavra além dos cumprimentos costumeiros da tradição nordestina. Seu Tenório era chamado por nós (às escondidas, claro) de "casca grossa". Alcunha que designava os gestores firmes, quase que impenetráveis e que não temiam ninguém, nem mesmo os temidos "inspetores", que tudo investigavam, para proporem punições aos desmandos identificados. Nem a eles Seu Tenório se dobrava, obviamente respaldado por diversas experiências exitosas de inspetorias sofridas.
Nós todos o admirávamos e, ao mesmo tempo, guardávamos prudente distância da grande sala (a maior do prédio) onde se localizava a gerência.
Somente quando pude conversar com ele, por conta de estudos de operações de crédito (este era o meu trabalho), percebi um homem firme, experiente e, para minha surpresa, preocupado em nos orientar e moldar nosso perfil profissional. Que surpresa!
O Casca Grossa era alguém que acompanhava nosso desempenho à distância, sabia de situações vividas na equipe que eu julgava serem-lhe desconhecidas e, especialmente, dava conselhos que incorporei a minha vida profissional e pessoal.
Não era Seu Tenório que estava longe de mim. Ele apenas cumpria o seu papel. E com mais de 30 anos de casa, prestes a se aposentar, posso afirmar que com galhardia seria capaz de apontar mais acertos do que erros em sua caminhada profissional.
Era eu que estava distante dele. E usava o temor como desculpa, pois sabia que ao me aproximar ouviria de alguém mais experiente e interessado os conselhos e críticas que, de tão acertadas, fariam doer o meu orgulho próprio e a minha vaidade. Nós o chamávamos de casca grossa para criarmos o escudo da nossa falta de visão profissional, da inexperiência que precisa ser moldada pelos mais rodados, da arrogância juvenil que ainda resistia no começo dos meus vinte anos de idade.
Ele estava próximo e queria ajudar. Mas não abriria mão da sua experiência e do seu firme posicionamento.
Talvez não tivesse jeito para dar "feed-back". Aliás, eu nem sei se essa coisa passou pelos bancos de conhecimento que moldaram Seu Tenório. Mas eu sei que ele me disse, nos momentos em que baixei a guarda e dispus-me a ouvi-lo, valiosos segredos e necessidades para uma vida profissional bem sucedida.
Eu não sei mais aonde anda Seu Tenório. Nem mesmo sei se ele está vivo.
Mas sei que jamais esquecerei o meu primeiro gerente e seus conselhos. Pois se preocupar-se com os membros de sua equipe e suas carreiras profissionais, querer incentivá-los a galgarem posições mais elevadas, cobrar seus resultados em função de suas potencialidades e fazê-lo da melhor maneira que aprendemos e desnvolvemos toranr alguém um casca grossa, quero confessá-lo: obrigado Seu Tenório, eu sou um Casa Grossa.
Não quero trocados, quero reconhecimento. Não quero gentilezas, quero Justiça. Não quero hipocrisias, quero conselhos que me levem, um dia, a poder ultrapassar a marca dos 30 anos de profissionalismo com a isenção e saldo positivo daquele velho mestre de cabelos brancos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário