13 de mai. de 2010

CONTRA AS DROGAS

Boa Noite!

Vítimas e mais vítimas povoam os espaços dos noticiários brasileiros, banhados de sangue que provém do mundo infernal das drogas. Famílias que desaparecem e dores que jamais desaparecerão. Este é o legado das drogas. Por isso, hoje, resolvi trazer ao conhecimento de vocês este corajoso depoimento de uma médica goiana. Quem sabe possamos enviá-los a muitos e formar, neste internet às vezes tão vazia de sentimentos e de lições para o engradecimento destes jovens, uma corrente do bem.
O título é "TEM UMA PEDRA NO MEIO DO CAMINHO":

Lamento se estrago a festa, mas me junto às milhares de mães brasileiras do "fenômeno crack" para pedir socorro, neste mês de maio, de 2010.
Convivo com esta dolorosa realidade enquanto médica do Hospital Eurípedes Barsanulfo, em Goiânia, uma das raras referências regionais no atendimento a esta população assustadoramente crescente, finalmente vista como epidemia pelas autoridades a nível nacional: o crack, particularmente entre os adolescentes.
Confesso que o coração de mãe, tocado pela dor e o espanto destas mulheres e pelo desespero de seus filhos subtraídos física e psiquicamente pela droga, entorpece muitas vezes o olhar da terapeuta. Em apenas um dia internamos para desintoxicação cerca de 10 a 20 meninos nesta condição e o ambulatório do Hospital teve que se adaptar nos últimos anos, para dar conta de parte da demanda reprimida por atendimentos em dependência química por crack. As internações são voluntárias, eles estão pedindo ajuda, mas infelizmente, sendo o único hospital a abrir as portas para esta população, a fila de espera chega a 3 meses, às vezes mais.
Com o poder devastador de um tsunami para os corpos em desenvolvimento destes seres e para as famílias atingidas, sua abrangência inclui hoje toda a sociedade brasileira. Afinal, estas pedras são lançadas também às nossas janelas e um sem número de novos e despreparados "fora da lei", feitos fantasmas teleguiados, perambulam pelas ruas, dia e noite, em situação de violência de toda a sorte.
As estatísticas apontam que 30 a 40% destes jovens morrem precocemente em condições violentas. Outra multidão está doente, incapacitada, "fora do ar" e também da escola, da vida em família, do lazer, do encontro amoroso, da vida num momento crucial de estruturação da personalidade adulta.
Estas mães, na minha observação, acumulam sentimentos de culpa, solidão e impotência. "Não faltou abraço, doutora, não faltou aviso, olha aí o meu menino, puro osso, nem sei quando isto começou e não sei como sair deste inferno", ouço diariamente, "até as telhas da casa ele já arrancou pra vender e comprar a droga", ou então, "trouxe este, mas lá em casa tem outros três, na mesma situação", "foi sempre um bom filho, não sei como isto foi acontecer", etc, etc. Algumas, poucas, vezes vem também o pai, um tio, um avô. O espanto é o mesmo, a dor, uma certa vergonha, cabeças baixas, muitas interrogações e busca por caminhos.
Sabemos do impacto dos emaranhamentos familiares na determinação deste fenômeno e não é possível enfrentá-lo sem uma visão do todo. Também reconheço as limitações da rede pública e conveniada para lidar com esta situação. Muitas vezes penso que pela gravidade do momento, devemos ter hospitais de campanha e treinamentos de emergência, ações articuladas em todos os níveis, envolvimento das famílias e de toda a comunidade.
Por enquanto vejo mais pedras que soluções. Não quero também atirá-las. Penso que o momento é de união, de reunirmos nossos conhecimentos, nossos recursos, nossa lucidez e, principalmente, nossa compaixão. Neste Dia das Mães, estas mulheres estarão presentes no meu coração e eu as reverencio, sem julgamento.

Dagmar Ramos, médica psicoterapeuta, especialista em medicina preventiva e social pela USP, diretora e fundadora do Instituto Brasileiro de Soluções Sistêmicas.

(Publicado em 05/05/2010 - Jornal O Popular)

Nenhum comentário: