31 de mar. de 2011

APROVEITADORES DE VELÓRIOS

Boa Tarde!

Todo o país acompanha em cada detalhe, comovido e admirado, as exéquias do ex-Vice-Presidente José Alencar. De toda sua trajetória exitosa, talvez fique marcada em toda a memória nacional, para o resto de nossas vidas, sua luta contra o câncer, de todas as formas que julgou possível, inclusive submetendo-se a intervenções experimentais. A luta foi perdida, mas o testemunho fica.
Estes momentos em que o país mostra claramente o quanto precisa de referências e heróis para suportar as duras provações do dia-a-dia, raros pela inexistência (ou exiguidade) de exemplares desta espécime, fazem-me refletir sobre um outro aspecto de nossas vidas: como gostamos de elogiar, reconhecer e exaltar as qualidades e virtudes... dos defuntos!
Temos a companhia de pessoas que nos são tão valiosas, que nos dão tantos exemplos, que admiramos e gostamos tanto que simplesmente acreditamos serem elas eternas, feitas de ferro ou com duração indefinida. E, por isso, acabamos deixando para dizer amanhã o quanto elas nos são importantes. Se não der amanhã, por conta de todas as imensas tarefas que pesam sobre nossos ombros, acabamos deixando para a semana que vem, e depois a outra e a outra... De repente, vemo-nos em frente aos ataúdes que levam as cascas daqueles que tanto nos ensinaram, apoiaram, e ficamos discursando para uma claque que está ali, na maioria das vezes, mais por uma curiosidade solidária, do que propriamente pelo reconhecimento do que fez o finado.
Fala-se tanto, e tão bem, dos ocupantes dos caixões, que às vezes me pergunto se alguém já informou aos oradores que o aparelho auditivo do 'de cujus' já não mais funciona.
A morte é um momento de saudade. Não é um momento de discursos. Se a dor que brota do coração daqueles que amam o falecido pedir, que as palavras saiam dos lábios daqueles que, durante a vida, devem ter reconhecido e externado todo o carinho e agradecimento pelo bem que ele fez.
Se já não nos bastasse suportar os papagaios de pirata de eventos, ainda temos que aguentar os aproveitadores de velórios famosos! É demais.
Talvez seja mais prudente homenagearmos os vivos, fazer-lhes discursos enquanto possuem amplas condições de compreensão, render-lhes a gratidão daqueles que aprenderam a ser melhores com alguém que lhes é muito melhor. Aos velórios reservemos nosso abraço, nossa oração e nossa silenciosa e solidária presença de cristãos. Só isto.

Nenhum comentário: