9 de jan. de 2012

SÍNDROME DE GABRIELA

Uma famosa personagem de Jorge Amado, Gabriela, ficou marcado na memória brasileira, talvez bem menos pelo contexto social que pretendia abordar do que pela música que foi feita para a novela "Eu nasci assim, eu cresci assim, eu vivi assim, vou ser sempre assim". Claro que o poeta queria expressar a irreverência dela, e construiu este refrão numa música que pegou e ainda hoje é lembrada.
O problema é que a música foi tão bem assimilada que gerou um fato inédito nos anais da história da administração: a síndrome de Gabriela! Desta forma podemos descrever os funcionários que não querem mudar, não aceitam ajuda para sair de sua acomodação e resistem a tudo o que é novo. E não vamos usar da lenda urbana de que tudo isto somente acontece em repartições ou empresas públicas, pois não é verdade.
As organizações privadas estão de cabelo em pé com a proliferação rápida da Síndrome. É uma tal de acomodação, de lassidão, de evitar-se quaisquer ações de maior comprometimento ou que exijam maior raciocínio. Funcionários não lutam e nem reclamam por maior espaço e autonomia, não! Eles querem apenas ser deixados quietinhos em seus lugares, bastante enfeitados com fotos, bonecos e outras bugingangas, que a moda parece ditar um padrão: quanto mais enfeite, menos vontade de mudar.
Claro que toda generalização é burra, esta não poderia ser diferente. Mas é que assusta ver tanto empenho, tanta dedicação em se buscar estas bobagens para se colocar sobre as mesas de trabalho e/ou nos computadores, enquanto não percebemos a mesma dedicação na busca pelo conhecimento que agrega valor ao seu desempenho profissional e, por consequência, ao da sua organização.
Ora, mas será que estes funcionários querem galgar tais postos? Por que eles não podem ser deixados quietinhos, desempenhando de forma automática e quase sem pensar suas tarefas diárias? Qual o problema disto?
O problema é que o avanço tecnológico ensejará mais decisões. O volume será maior e a complexidade também. Se é verdade que a tecnologia traz melhorias e simplificações nas atividades rotineiras da sociedade, também é um fato incontestável que as decisões das empresas adquirem uma maior complexidade e isto, por sua vez, requer mão de obra mais qualificada, apenas para ficarmos no terreno da gestão.
Como termos mão de obra qualificada, se na base, no nascedouro desta carreira, temos uma verdadeira epidemia de Gabrielas? É esta conta que não quer fechar, em minha opinião. A demanda por profissionais mais qualificados, aliada à saída de diversos deles da gestão das empresas, por idade ou morte, poderá criar um vácuo perigoso no desenvolvimento, ou, o que é pior para mim, um nível de concentração tamanho que beire a um monopólio. Até então isto parecia tema de filme de ficção científica, onde víamos claramente o dano que esta concentração traz à vida e à humanidade. Mas agora, sinceramente, ela me parece cada vez mais próxima.
Cabe a nós, gestores e formadores lutarmos contra este tipo de situação. Mostrando às Gabrielas que, se no romance do escritor, o final foi feliz da teimosa personagem, na vida real, nem sempre, a ficção dá certo.

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