Bom Dia!
“O educando não é vasilha, que aceita todo e qualquer conteúdo”. Somente o mestre e pensador Paulo Freire seria capaz de ser tão abrangente em tão poucas palavras, quando o tema é Educação e Liberdade. De fato, sorvendo do ensinamento legado as nossas gerações, presente e futura, deparo-me com algumas inquietudes: qual o papel que estamos desenhando para nossa sociedade, como educadores e líderes? Que tipo de exemplos, ações conjuntas e soluções construídas visando o bem comum estamos desenvolvendo? Qual a nossa expectativa diante da inovadora proposta que associa à Educação, um processo de melhor e maior qualidade de vida para os cidadãos? Mais ainda, pode haver Educação e Liberdade sem que ocorra de forma simultânea, Dignidade e Paz ?
Falar do educando, ousando utilizar as palavras sábias da Mestra Aridete Motta , é falar do ser humano, indissociáveis sob quaisquer prismas. Logo, debater sobre o processo ensino/aprendizagem é, necessariamente, redefinirmos ou aprimorarmos nossos papéis e responsabilidades sociais. Será aprofundarmos a discussão das dimensões humana e sócio-política, sem prejuízo da técnica, porém visando sempre o resgate da dignidade plena do ser humano. Beira o surrealismo acreditar que, numa sociedade onde a concentração de renda é excessiva, a exclusão e violência estão quase fora de controle, podemos, qualquer um de nós, estar a salvo da turbulência. O que precisa ser compreendido, e acredito de forma rápida, é que a nossa ausência deste processo, o não exercício da liderança que cada um possui em seu círculo de vida, agrava o quadro, acelera-o e aproxima-o velozmente do desequilíbrio total. Se acreditamos no que diz o educador citado, urge assumirmos nossos espaços: através das empresas onde atuamos, das associações ou clubes que freqüentamos, dos movimentos de base, enfim do que está disponível e acessível a cada um. O pensamento de que nada podemos fazer para mudar tais processos, é que distorce nossas antigas aspirações: de revolucionários corremos o risco de ficarmos estacionários. Ou pior, repetidores de teses, teorias e discursos inflamados, sem nexo com a realidade, e meramente “marcador de posição”, para usar um velho e conhecido jargão. E vale repetir, não existe fórmula mágica, nem solução pré fabricada. Ela surgirá da discussão comum, respeitosa e realista. Constrói-se uma outra realidade, e não se impõem interesses individuais ou de segmentos.
Mas, cabe examinarmos, em paralelo ao exercício do papel de cada um, o tipo de sociedade que desejamos construir. A partir de que, e dirigida para o que ?
Neste limiar da primeira década do século XXI atingimos tal grau de desigualdade que é difícil imaginarmos se haverá algo mais. De fato, enquanto regiões são citadas como altamente produtivas, o continente africano padece de uma fome crônica e secular; as potências registram índices econômicos espantosos, enquanto os indicadores de saúde pioram sensivelmente. O ser humano vale, cada vez mais pelo que possui, materialmente falando, do que pelo seu conjunto de crenças e valores morais que, de resto, compõem o conjunto da sociedade. É exatamente destas distorções que nasce a importância do método tão bem defendido por Freire.
A partir da discussão e construção coletiva do conteúdo, levando-se em conta a realidade vivida pelos educandos, o processo ensino/aprendizagem adquire uma outra dimensão, formando e permitindo ao educando o acesso pleno, geral e irrestrito ao saber.Enquanto a saúde e segurança, elementos importantes desta corrente, possuem um forte componente patrimonial, quer do aspecto do Capital Humano, quer do Capital propriamente dito, o item educação é estritamente pessoal. De fato, ela (a educação) é ferramenta que liberta o homem da ignorância, tornando-o capaz de perceber, discernir e decidir sobre o seu futuro, com a visão crítica, tão necessária em nossos tempos. Não que a liberdade seja resultado exclusiva dela, porém é bastante restrito o número dos que conseguem sua libertação, a quebra da escravidão trazida pela falta do saber, sem tê-la recebido.
Se o homem não é capaz de julgar de forma efetiva, as opções que lhe são colocadas pela sociedade dominante, como pode ser considerado livre ? E se não é livre a sua vida, dentro dos preceitos antes abordados, como podemos considerá-la digna? E se a sociedade, esta enorme coletividade de homens e idéias borbulhantes não possui dignidade (assim entendida em sua mais ampla tradução), como poderá viver em paz ?
Enquanto um homem que é catador de restos de lixos, julgar o salário mínimo como forma de alcançar a dignidade plena, ou uma mulher julgar que é muito mais digno “vender” o filho do que vê-lo morrer de fome, ou um idoso achar que a dignidade é sua família visitá-lo num asilo onde foi “jogado”, uma vez por mês ... meus irmãos, acreditem, estaremos buscando ou acelerando a desintegração disto que chamamos “vida moderna”.
Eis porque, sem o profundo conhecimento dos mestres aqui citados, ouso estabelecer este vínculo : a educação é imprescindível ferramenta para a obtenção da verdadeira liberdade humana, que, por sua vez, tornará a sociedade coletiva dotada da dignidade necessária à vida em paz !
Alterando o que já disse um poeta: ainda é possível sonhar ?
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