Boa Noite!
Fiquei impressionado com o rumo que tomaram as discussões e análises acerca da trágica morte da modelo Mariana Bardi, cuja vida foi ceifada por uma infecção hospitalar, aos vinte e dois anos. A Sepse (antiga septicemia) é hoje uma das maiores causas de mortalidade entre os pacientes internados e a triste campeã de mortes para os que ocupam leitos nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI).
A minha surpresa é a discussão toda estar acontecendo em torno do fato de que ela possuía um quadro de infecção urinária, e que isto é “comum” entre mulheres, e que a infecção hospitalar pode acontecer e que é “esperável” a morte de quem contrai uma sepse, salvo se o médico entupir o paciente, previamente, das terríveis medicações que combatem a septicemia, ainda que às custas de diversas outras condições de saúde.
Desculpem-me os intensivistas, a quem reconheço e respeito por trabalho tão árduo e difícil, como é lidar com pacientes no estado mais grave e agudo, ou para falar em bom português, quando em geral tudo o mais já não foi usado ou não deu resultado! São profissionais sérios e dedicados, mas que estão na ponta final do sistema de saúde, e deveria ser assim que as UTI’s podem ser entendidas quanto ao importante papel que desempenham.
A falha do sistema não está na UTI e tampouco na sepse, que é uma probabilidade altíssima para quem ocupa leitos hospitalares e, especialmente, aqueles de alta complexidade. O que não funcionou foi, mais uma vez, o tratamento preventivo e um diagnóstico precoce e preciso. E para que isto pudesse ocorrer, e não estou falando e nem julgando o caso particular da modelo, é necessário mais do que a presença física de um médico.
Se tivéssemos nossa rede e as portas de entrada do nosso Sistema Público de Saúde dotadas das equipes multidisciplinares que estão previstas nas leis que o regem, bem como os equipamentos diagnósticos necessários e a estrutura adequada, com certeza teríamos mais matérias positivas para serem divulgadas do que as tragédias que diuturnamente ocupam nosso espaço nobre, sempre apresentadas a partir dos seus efeitos (pois chamam mais a atenção e audiência da população), do que da denúncia ética de suas causas.
As UTI’s estão cada vez melhor aparelhadas e suas equipes treinadas. As tentativas de humanização dos espaços que elas ocupam e a percepção de que os clientes/pacientes merecem cuidados que nos primórdios foram julgados dispensáveis, já dão resultados positivos para uma análise isenta e técnica. Mas a Terapia Intensiva não é a entrada do sistema, e sim sua ponta de saída!
As tragédias não deveriam ser atribuídas à UTI. Tampouco aos ambientes hospitalares. Para tratarem doenças de alto risco, e exatamente por isto, eles são lugares de elevado risco à saúde.
As perdas decorrem da imensa e confusa desestruturação do nosso sistema de saúde, que discursa sobre prevenção, mas vive sobre a falta constante de apoio financeiro, material e humano às equipes de atenção primária e aos serviços de emergência.
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