13 de abr. de 2009

AO SABOR DAS ONDAS...

Boa Noite!
Os poetas e escritores usam da expressão “ao doce sabor das ondas” para expressarem, em muitas ocasiões, situações sobre as quais os navegantes, não possuindo governabilidade sobre os acontecimentos, deixam-se levar pelos ventos e correntes aos portos onde estes os transportarem.
Sinto que os clientes do setor de saúde devem começar a sentirem-se também assim: ao sabor das novidades tecnológicas. Com uma pequena diferença: as ondas levam às praias, enquanto as modernidades tecnológicas, mal testadas, mal controladas e mal fiscalizadas levam-nos para... Qualquer lugar que se imagine!
Eis o caso mais recente: um estudo chamado Syntax, coordenado pelo “New England Journal of Medicine”, do Reino Unido, e divulgado na semana passada pelos jornais brasileiros, informa que num grupo de 1.800 pacientes acompanhados, cerca de 14% daqueles que realizaram ANGIOPLASTIA com ao menos 03 vasos lesado precisaram submeter-se a um novo procedimento para revascularizar ao menos um vaso, num período inferior a um ano!
Isto é comparado ao desempenho da cirurgia cardíaca, onde no mesmo grupo apenas 6% dos operados tiveram restenose no mesmo período. Mais: o número de eventos adversos surgidos no grupo daqueles que se submeteram à angioplastia foi cerca de 30% maior do que no grupo que realizou o procedimento mais invasivo.
Bom, o leitor menos avisado rapidamente concluirá que é melhor a cirurgia tradicional, aquela que rasga o peito num expressivo corte, é bastante invasiva, e requer uma internação em ambiente hospitalar de alta complexidade por diversos dias. Certo? Errado.
Primeiro: devemos observar que o grande problema das incorporações tecnológicas, para o paciente, é exatamente a má indicação, a generalização que se costuma fazer de maneira irresponsável. Se as indicações para se realizar angioplastia e implantar-se “stents” forem seguidas corretamente, estes números tendem a cair em níveis que os técnicos consideram aceitáveis para a medicina, ciência não absoluta como todos sabemos.
Segundo: nenhum procedimento que retenha o paciente em leito hospitalar, seja de baixa ou especialmente de alta complexidade (como é o caso da UTI, por exemplo), agregará saúde sem expor o mesmo a um risco elevadíssimo e que inclui, dentre outros, os perigos de uma infecção hospitalar. Isto não é citado na pesquisa e não sabemos o grau de influência que teria sobre os resultados mapeados.
Terceiro: este tipo de informação surge num momento em que os cirurgiões cardíacos resolveram, sem nenhum tipo de negociação, impor às operadoras de saúde preços para suas cirurgias com aumentos de até 300% em relação aos que praticavam pela tabela que adotaram também unilateralmente (a CBHPM, da AMB/CFM). Ou seja, tentar desqualificar os hemodinamicistas, para imporem sua associação e seus preços, parece ser apenas mais uma das equivocadas estratégias que vem sendo usadas pelos cirurgiões cardíacos desde o ano passado.
Mais uma vez estamos pacientes e leigos, ao sabor das ondas da medicina: tecnologias mal indicadas, médicos que querem ditar preços, agência reguladora que lava s mãos... Onde iremos parar?

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