Bom Dia!
Às vezes é preciso revisitarmos certos escritos. Menos para verificarmos se procedem e muito mais para continuarmos acreditando.
Que tipo de amor nós sentimos pelas organizações nas quais passamos quase que metade dos nossos dias? Sim, falo de amor mesmo. De um sentimento que deve ser o reflexo do amor que sentimos por nós próprios e por todos os nossos semelhantes. Como o sentimos?
Os gregos afirmavam existir três espécies diferentes de amor: o PHILOS ou FILOS (do grego philia ou φιλία), era um conceito desenvolvido por Aristóteles e estava muito atrelado à lealdade, um sentimento desvinculado da paixão, mas intrínsecamente associado à perseverença frente quaisquer momentos. O Amor-Filos não conhecia individualidade e nem centralismos, era global e se estendia a todos, sejam familiares, conhecidos, amigos, desconhecidos, etc. No grego moderno, FILOS se traduz por AMIZADE.
É uma forma tão forte de amar que, para termos uma idéia, nos livros do Novo Testamento da Bíblia, a descrição de FILOS para este sentimento é usada em número menor apenas do que a outra espécie: o amor ÁGAPE (do grego àgape ou ἀγάπη ), entendido como um sentimento que transcende a questão corporal, vai além de uma atração física ou da empatia com esta ou aquela pessoa. O amor-ágape pode ser entendido como a realização plena pela felicidade e bem estar do outro e não de si próprio. É o que diversos estudiosos chamaram de entrega total. Eu sou feliz por tornar feliz a vida daqueles com quem eu convivo direta ou indiretamente. Este conceito requer uma mudança de vida minha, tomando a Ética, a Responsabilidade Social, a Honestidade e outros princípios relacionados, como vetores que definem minhas prioridades e forma de atuação profissional e pessoalmente falando. No grego moderno, AGAPE se traduz por AMOR. Este é o amor que para os cristãos motivou o sacrifício de Cristo para toda a humanidade. Um sacrifício de um inocente pelos culpados, em nome do amor que não conhece exigências ou condições.
Uma outra espécie descrita pelos gregos clássicos está totalmente ligada à atração física, é o amor EROS (eros ou ἔρως). Ele envolve o desejo por alguém que nos estimula sensualmente falando. Este tipo de amor é descrito como o que nos atrai para além do FILOS ou da amizade. Platão refina o conceito entendendo-o como esta ligação de objetivos ainda que dissocie-o do amor carnal (daí o termo amor platônico). O amor-eros estaria na base da compreensão da verdade, seja pelos amantes, seja pelos filósofos.
Mas, como estes tipos de amores podem estar ligados ao nosso exercício profissional?
O FILOS pressupõe amizade. E esta não pode acontecer num ambiente onde não se respeite o próximo, principalmente aquele com quem temos divergências metodológicas, culturais ou sejam elas quais forem. Ser amigo não é ser omisso, nem tampouco conivente. É agregar valor à vida profissional dos outros e, assim, pavimentar o caminho de todos rumo às promoções. Crescer juntos é mais fácil do que fazer sucesso sozinho. Atuar sem paternalismos, mas com justiça e, em especial, equilíbrio, torna um profissional amigo da sua empresa e dos seus pares.
O ÁGAPE pressupõe colocar-se na pele de seus clientes. Sentir a sua decisão não sob o seu ponto de vista, não a partir de seu conhecimento técnico, mas sob a percepção de quem usa e adquire os seus produtos. Se você realiza a necessidade dos seus clientes eles necessariamente estarão satisfeitos com sua empresa. Não é mais ou menos satisfeitos, ou parcialmente atendidos. Quem inventou meio termo na satisfação dos clientes foi alguém que não pensa neles! Cliente está satisfeito ou não, ponto. E se tenho amor ágape, não posso exigir deles o que não quero para mim. Não devo diferenciá-los por quaisquer aspectos pessoais, e devo honrar o que prometi.
O EROS deve nos dar a vontade de defender a organização, a gana de conquistar mais clientes e de fazê-la cada vez melhor e maior. Esta garra faz com que assumamos os seus objetivos como se fossem nossos. As metas passam a ser desafios e não barreiras, os resultados transformam-se em degraus para o sucesso e não fardos em nossa vida profissional.
Muitas vezes abrimos mão de sentirmos amor pelas organizações onde atuamos ou por um fanatismo que nos cega e faz-nos acreditar que buscamos um paraíso terrestre nas corporações ao invés de um lugar profissional e formado majoritariamente por profissionais, ou, o que considero pior, deixamo-nos levar por um cinismo de achar que quando as coisas estão mal, não podem ficar piores. E, assim, acomodamo-nos numa mesmice qualquer, abrimos mão de nossas competências e sonhos e ficamos esperando o armagedom passar. Mas ele não passa.
Ter amor por uma empresa só é possível se tivermos:
Primeiro, amor por nós mesmos. Cuidados conosco, com nossos familiares e amigos.
Segundo, amor para com nossas equipes. Solidariedade, equilíbrio e justiça para com todos e dando o exemplo maior, seja qualq for a nossa função ou posição hierárquica.
Terceiro, amor para com as mudanças positivas do mundo, entendendo as empresas como forças propulsoras e viabilizadoras destas mudanças.
Se você não consegue encaixar a palavra egoísmo nestes três requisitos listados acima é porque o AMOR pela empresa pode sim ser algo real e construtivo, para o ser humano, a sociedade onde ele vive e o meio ambiente que lhe assegura a sobrevivência.
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